Crescimento dos transtornos mentais relacionados ao trabalho acende alerta para empregadores e transforma prevenção, acompanhamento dos colaboradores e gestão dos riscos psicossociais em questões estratégicas para as organizações
A saúde mental deixou definitivamente de ser um assunto restrito à vida pessoal dos trabalhadores. Dentro das empresas, ansiedade, depressão, esgotamento profissional e outros transtornos passaram a representar também um desafio de gestão, com reflexos sobre afastamentos, produtividade, clima organizacional, custos e continuidade das operações.
O tema ganhou ainda mais relevância com as mudanças nas regras brasileiras de Saúde e Segurança do Trabalho. Desde 26 de maio de 2026, a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) está em vigor, incluindo expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Na prática, a discussão sobre saúde mental nas empresas entra em uma nova fase: não basta oferecer ações pontuais de bem-estar. É necessário olhar para a própria organização do trabalho e identificar situações que possam representar riscos à saúde dos colaboradores.
Quando o problema do trabalhador também se torna um problema da empresa
Um afastamento não significa apenas a ausência temporária de um profissional. Dependendo da função e do período de afastamento, a empresa pode precisar reorganizar equipes, redistribuir atividades, contratar substitutos, administrar horas extras e lidar com a perda temporária de conhecimento e produtividade.
Quando episódios semelhantes começam a se repetir dentro de uma mesma organização ou setor, o impacto pode ser ainda maior. É por isso que indicadores como absenteísmo, afastamentos recorrentes, rotatividade elevada, conflitos internos e queda de desempenho não devem ser analisados isoladamente. Eles podem ajudar a revelar problemas relacionados à organização e às condições de trabalho.
Para Dr. Gustavo Marchiori, advogado e Conselheiro de Organizações da Saúde, idealizador e sócio fundador da Fit Job Medicina do Trabalho, a mudança exige uma visão mais estratégica das empresas.
“Quando a empresa começa a analisar saúde ocupacional apenas depois que o afastamento aconteceu, muitas vezes ela já está lidando com as consequências do problema. A prevenção permite identificar sinais e fatores de risco, estruturar ações e criar condições para proteger o trabalhador e também a própria organização.”
Gustavo é também idealizador e sócio fundador da Marchiori e Oliveira Sociedade de Advogados, tutor do MBA Compliance na Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP), embaixador e professor da Board Academy, doutorando em Saúde Pública e mestrando em Gestão de Organizações de Saúde pela FMRP/USP.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
Esse é um ponto importante porque ainda existe muita confusão sobre o assunto. A nova NR-1 não significa que a empresa tenha de investigar a vida pessoal ou fazer diagnóstico psicológico de cada funcionário.
O Ministério do Trabalho e Emprego esclarece que a avaliação deve estar relacionada às condições e à organização do trabalho. O objetivo é identificar características ou exigências da atividade profissional capazes de atuar como fatores de risco.
Entre os exemplos estão excesso de demandas e sobrecarga de trabalho, assédio e falta de suporte ou apoio no trabalho. Esses fatores podem contribuir para o adoecimento e precisam ser considerados dentro do gerenciamento dos riscos ocupacionais.
Portanto, a pergunta que o empregador precisa fazer não é simplesmente “meus funcionários estão ansiosos?”, mas também: há características do nosso ambiente ou da nossa organização do trabalho que podem estar contribuindo para o adoecimento?
Não basta aplicar um questionário
A gestão dos riscos psicossociais precisa ser encarada como um processo contínuo. Ela envolve identificar perigos, avaliar riscos, adotar medidas preventivas e acompanhar os resultados.
Ações como palestras, campanhas e iniciativas de conscientização têm importância, mas precisam fazer parte de uma estratégia mais ampla quando existirem fatores de risco relacionados ao trabalho.
Prevenção pode ser mais eficiente do que administrar o afastamento
É justamente nesse ponto que a medicina ocupacional assume um papel estratégico. Acompanhamento da saúde dos colaboradores, programas preventivos, treinamentos, análise dos afastamentos e orientação no retorno ao trabalho podem ajudar as organizações a compreender melhor seus indicadores e agir antes que determinadas situações se agravem.
Para Dr. Caio Vasconcelos Oliveira, sócio e Diretor de Marketing (CMO) da Fit Job Medicina do Trabalho, cuidar da saúde ocupacional também precisa fazer parte da estratégia de gestão de riscos das organizações.
“Saúde mental no ambiente corporativo não pode ser tratada somente quando surge um afastamento ou um conflito. A empresa precisa conhecer seus riscos, documentar suas ações e construir uma política contínua de prevenção. Isso significa cuidar das pessoas, mas também reduzir vulnerabilidades trabalhistas, previdenciárias e organizacionais.”
Caio Vasconcelos Oliveira é doutor em Direito e mestre em Saúde e Educação pela Universidade de Ribeirão Preto, pós-graduado em Direito Médico e Hospitalar, Direito do Trabalho e Direito Previdenciário. É docente do Projeto de Extensão FPD-Saúde da Universidade de Ribeirão Preto, advogado dativo do CREMESP e membro da Comissão de Direito Médico da 12ª Subseção da OAB/SP.
E quando o funcionário já está afastado?
A prevenção é fundamental, mas as empresas também precisam saber lidar adequadamente com quem já precisou interromper suas atividades por motivos de saúde.
O acompanhamento do afastamento e, posteriormente, do retorno ao trabalho pode ser determinante para uma reintegração segura. Dependendo do caso, simplesmente receber o profissional de volta e colocá-lo exatamente nas mesmas condições anteriores pode não ser suficiente. É necessário avaliar cada situação dentro das regras de saúde ocupacional e das condições efetivas de trabalho.
Home office também entra nessa discussão
Os riscos psicossociais relacionados ao trabalho não desaparecem quando o funcionário sai fisicamente da empresa. A avaliação também pode alcançar trabalhadores em regime remoto, híbrido e teletrabalho, conforme as características e riscos da atividade.
Isso significa que questões relacionadas à organização das atividades, carga de trabalho, comunicação, demandas e outras características do trabalho também precisam ser observadas nesses modelos.
O que as empresas precisam observar a partir de agora?
Não existe uma única solução aplicável a todas as organizações. Cada empresa possui características próprias, número de funcionários, atividades, riscos e formas diferentes de organização do trabalho.
O ponto de partida é conhecer essa realidade. A empresa deve identificar perigos, avaliar os riscos, definir medidas de prevenção e acompanhar se essas medidas estão funcionando. A documentação do processo também é parte importante do gerenciamento.
A gestão não deve existir apenas no papel. As condições reais do ambiente e da organização do trabalho precisam corresponder às medidas preventivas adotadas.
Saúde mental também é gestão empresarial
O avanço da discussão sobre saúde mental está mudando a maneira como empresas enxergam a Medicina do Trabalho.
O desafio agora é sair de uma atuação exclusivamente reativa fazer exames, administrar atestados e acompanhar afastamentos para uma política de prevenção baseada em informações, acompanhamento e gerenciamento dos riscos.
Isso envolve RH, lideranças, profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho e a própria direção das organizações.
A Fit Job atua nesse processo com soluções em Medicina Ocupacional, Saúde e Segurança do Trabalho, programas preventivos, treinamentos, acompanhamento de afastamentos e ações relacionadas ao gerenciamento dos riscos psicossociais.
Mais do que atender a uma norma, a discussão coloca uma questão essencial para as empresas: quanto custa esperar o problema aparecer para começar a cuidar dele?
Fit Job Medicina do Trabalho
A Fit Job Medicina do Trabalho, Perícias e Educação atua com soluções voltadas à saúde ocupacional e à prevenção e gestão de riscos nas organizações.
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Fontes consultadas
Ministério do Trabalho e Emprego – Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), redação vigente a partir de 26 de maio de 2026.
Ministério do Trabalho e Emprego – Manual de Interpretação e Aplicação do Capítulo 1.5 da NR-1 – Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Fundacentro – Diretrizes para aplicação da NR-1 com inclusão dos riscos psicossociais, 2026.















